Menino Luz
- Regina Evaristo

- há 3 dias
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por Regina Evaristo - Advogada Autista 💙
Conheci Ricardo às margens do Velho Chico, em Pirapora, no norte de Minas Gerais.
E talvez seja impossível contar essa história sem antes falar do rio.
O São Francisco não é apenas um curso d’água. É uma entidade antiga. Um contador de histórias. Um desses lugares que parecem guardar, em suas correntezas, segredos que o tempo não conseguiu levar. Há pessoas que passam por ele. Outras pertencem a ele. Ricardo é uma delas.
Antes de conhecê-lo, conheci sua mãe. Uma senhora distinta, de longos cabelos negros, tão negros quanto a plumagem de uma graúna. Daquelas pessoas raras que unem elegância, inteligência e gentileza sem esforço aparente. Assim que soube que eu vinha do Rio de Janeiro, lançou uma frase que soou mais como uma profecia do que como uma recomendação:
- Você precisa conhecer meu filho Ricardo.
E, nas horas seguintes, falou dele como quem fala de um tesouro da família.
Naquele fim de tarde, eu estava sentada em uma das áreas mais encantadoras da pousada. O cenário parecia retirado de uma aquarela mineira: móveis rústicos, plantas pendentes formando cascatas verdes, troncos cuidadosamente alinhados, uma decoração que misturava simplicidade e requinte. Tudo concebido pelas mãos e pelo olhar sensível da mãe de Ricardo, segundo me contou seu pai, Francisco - nome apropriado para quem vive às margens do rio que também se chama Francisco.
Foi então que o vi.
Ao longe, aproximava-se uma figura esguia e altiva. Caminhava com a naturalidade de quem está em casa no mundo. Vestia apenas shorts, chinelos e a luminosidade despreocupada de quem acabara de retornar de uma caminhada pela beira do rio.
Chegou sorrindo. Sentou-se. Conversamos.
E, como dizem os cariocas, o papo rolou.
Há encontros que exigem tempo para se tornarem amizade. Outros parecem apenas retomar uma conversa interrompida em alguma esquina da existência. Foi assim.
Os assuntos se sucederam sem esforço. Falamos de sonhos, projetos, cidades, alegrias, perdas, política, gente, futuro e passado. Compartilhamos aniversários, conquistas e também os inevitáveis dissabores que a vida distribui sem pedir licença.
Tempos depois, em uma conversa, Ricardo me confidenciaria algo que deu novo significado àquele encontro:
— Antes de te conhecer, eu já tinha a intuição de que não seria um encontro qualquer.
Compreendi que talvez o Velho Chico já soubesse o que nós ainda ignorávamos naquele fim de tarde. Alguns encontros chegam precedidos por uma espécie de anúncio silencioso, como se a vida soprasse antes, em voz baixa, aquilo que o coração só entenderá depois.
Em algum momento, passei a chamá-lo de Menino Luz.
Não porque fosse perfeito. As pessoas luminosas raramente são. Mas porque carregava algo cada vez mais raro: uma capacidade genuína de iluminar os ambientes sem precisar ocupar o centro deles.
Há quem impressione pela inteligência. Há quem impressione pelo sucesso.
Há quem impressione pela habilidade de falar. Ricardo impressiona pela habilidade de perceber. Perceber o outro.
Perceber a vida. Perceber aquilo que passa despercebido para quase todo mundo.
Sua sensibilidade não é daquelas que fazem alarde. É silenciosa. Habita os detalhes. Surge na forma como escuta, na forma como acolhe, na maneira respeitosa com que enxerga as pessoas e os acontecimentos.
Responsável, organizado, socialmente atento, dono de uma visão humana e política admirável, Ricardo reúne qualidades que costumam aparecer separadas.
Nele, convivem harmoniosamente.
Ricardo é desses que arruma as malas para suas viagens, cuidadosamente planejadas, ouvindo música e curtindo o antes da mesma forma que curte o durante.
Mas talvez sua característica mais extraordinária seja outra.
Ricardo é feliz.
Não aquela felicidade publicitária das redes sociais. Nem a felicidade ruidosa que precisa ser anunciada. Refiro-me à felicidade serena de quem aprendeu a fazer as pazes consigo mesmo. A felicidade de quem compreendeu que viver não é acumular vitórias, mas encontrar sentido.
E isso, convenhamos, tornou-se raridade.
Os anos passaram.
Vieram novas estradas, novos desafios, novas estações.
Mas algumas amizades desafiam a geografia e o calendário. Permanecem intactas, como certos faróis que continuam acesos mesmo quando estamos longe da costa.
Nossa amizade é uma delas.
Talvez por isso eu ainda o chame de Menino Luz.
Porque algumas pessoas não iluminam apenas os lugares por onde passam.
Elas iluminam também as lembranças que deixam.
Por fim e, não menos importante: Ricardo lança luz nos meus escuros.





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