Saudade do Futuro
- Regina Evaristo

- há 4 dias
- 3 min de leitura
por Regina Evaristo - Autista 🌻
Na academia, entre halteres e silêncios, eu costumava ser apenas mais um corpo em movimento; discreto, previsível, quase invisível. Meu jeito autista organiza o mundo por dentro, mas, por fora, muitas vezes ergue uma espécie de vidro entre mim e os outros.
isso dói.
As pessoas passam, olham, e seguem. Não é maldade; é ruído de frequência diferente.
Até que ele começou a dizer “bom dia”. E esse “ bom dia”, ocorre diuturnamente.
Não era um “bom dia” protocolar. Era inteiro. Dito com o corpo, com os olhos, com as mãos, como quem não economiza presença. E isso, para mim, é quase um acontecimento cênico.
Ele gosta de marcar o tempo: “já passei dos 60”, repete, como quem finca bandeiras na própria história. Tem o humor dos aquarianos, segundo ele mesmo, sustentáculo de sua forma de ver o mundo, e um linguajar solto, direto, desses que não pedem licença para existir. É o tipo de pessoa que fala como se estivesse em cena, mesmo quando segura uma garrafa de água entre uma série e outra ou sua inseparável bolsa, estilo bornal; elegantemente atravessada entre o ombro e dorso.
Soube depois que não era impressão: ele viveu de palco. Diretor de teatro, produtor, homem de coxia. Chiquinho Nery, já produziu dois musicais em homenagem ao icônico Sidney Magal e à nossa inesquecível Clara Nunes, além de dirigir outros espetáculos.
Um deles com um título que me pareceu perfeitamente atual: Alice no País da Internet.
A história dele começa antes de mim, como todas as histórias interessantes. Em 1981, iniciou a carreira no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Ainda jovem, estudava na Universidade Gama Filho, e carregava consigo uma frase que lhe disseram, dessas que poderiam ferir, mas que, em certas pessoas, viram combustível: “você tem voz de passarinho com fome”.
Segundo ele, dita por sua finada professora de música.
Ele saiu do subúrbio aos 21 anos e foi morar em Botafogo. A família não ia vê-lo no teatro. Isso ficou dito sem drama, mas com densidade. Algumas ausências não fazem barulho, elas apenas acompanham.
Tomamos um café. Despretensioso, como devem ser os encontros que realmente importam. Foi ali que ele explicou, com um provérbio árabe, como constrói seus limites: “ Se você deixar o camelo colocar a cabeça dentro da tenda, ele toma conta.”
Eu entendi. Pessoas que vivem de criação aprendem cedo que afeto sem fronteira vira invasão. E ele, apesar de expansivo, é preciso. Sabe até onde vai, e onde não deixa ninguém entrar.
Depois vieram histórias. Muitas. De coxia, de estrada, de viagens pela Europa, de artistas cruzando o Brasil em busca de plateia e sentido. Histórias contadas com o corpo inteiro, como quem ainda está em cena, e talvez esteja.
Mas foi uma frase dele que ficou comigo, dessas que atravessam o dia e se acomodam no pensamento como uma cadeira bem posicionada: “ Tenho saudade é do futuro.”
Eu, que vivo organizando o passado para caber dentro de mim, fui surpreendida por essa inversão. Saudade, para mim, sempre foi arquivo. Para ele, é projeto.
Chiquinho me confidenciou que sonhou em criar o Instituto Arca de Noel, mas que desistiu por “cansaço” de ter que lidar com as excentricidades humanas.
Não explicou muito, e eu não perguntei. Aprendi que certos sonhos e falas precisam de silêncio….Mas entendi o suficiente: é coisa de quem ainda acredita em acolhimento, em travessia, em salvar algo, nem que seja a si mesmo.
Na academia, continuamos. Ele com sua presença inteira, eu com meu modo cuidadoso de existir. E, entre nós, um acordo simples e raro: o reconhecimento.
Todos os dias, ele me diz “bom dia”.
E, pela primeira vez em muito tempo, o mundo responde: Bom dia!!!🌻💙



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