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Amanda, a professora que não levanta peso, levanta gente

  • Foto do escritor: Regina Evaristo
    Regina Evaristo
  • 27 de mar.
  • 3 min de leitura

por Regina Evaristo, autista 🌻


Tem gente que entra na nossa vida como quem chega numa sala cheia: faz barulho, ocupa espaço, quer ser vista.

E tem gente como Amanda… que chega como luz acesa ao entardecer. Sem alarde. Mas muda tudo.


Eu já tinha passado por outras academias. Cinco, para ser exata. Cinco espaços onde o meu corpo em tratamento oncológico e no TEA, era visto, medido, corrigido. mas a alma… ignorada.

Fui, como tantas vezes na vida, “excluída com educação”. Aquela exclusão polida, que não grita, mas afasta. Que não fere na superfície, mas deixa o corpo inteiro em estado de alerta.


Até que encontrei Amanda.


Ela não me perguntou primeiro sobre carga, repetição ou performance.

Ela me olhou como gente.


E isso, para quem vive num mundo sensorialmente intenso, como o do TEA, não é detalhe. É milagre.


Amanda tem esse tipo raro de gentileza que não pesa. Não invade. Não exige que você se adapte ao ritmo dela, ela ajusta o ritmo ao seu.

Seu tom de voz não atropela. Seu olhar não julga. Sua presença não cansa.


Ela ensina, sim. Corrige postura, orienta movimento, organiza treino.

Mas, antes de tudo, ela acolhe.


E acolher, hoje em dia, é quase uma especialização invisível.


Há professores que sabem muito.

Amanda sabe sentir.


Ela percebe quando o silêncio não é desinteresse.

Quando a pausa não é preguiça.

Quando o excesso de estímulo vira um muro invisível.


E, com uma naturalidade desarmante, ela contorna esse muro, não com força, mas com presença.


E houve um dia, desses que marcam o corpo antes mesmo da memória organizar, em que tudo ficou alto demais.


Um evento na academia.

Sem aviso.

Uma apresentação de escola de samba, com a sonorização atravessando o espaço, invadindo o ar, o chão, o peito.


Para muitos, festa.

Para mim, desorganização completa.


O som não era apenas som. Era impacto. Era invasão. Era perda de eixo. E eu desmaiei.


Ao redor, profissionais bem-intencionados… mas perdidos.

Sem saber o que fazer, porque nunca tinham aprendido sobre aquilo que não se vê , o colapso sensorial de uma pessoa autista.


E então, Amanda.


Sem alarde. Sem pânico. Sem espetáculo, disse:


- Parem com o barulho. Diminuam o som .

- Não toquem nela.

- Não ofereçam água.

- Somente apoio.


Ela não precisou de manual naquele momento.

Ela já era o próprio manual.


Enquanto o mundo fazia ruído, ela fez silêncio.

Enquanto havia confusão, ela trouxe direção.

Enquanto faltava entendimento, ela ofereceu respeito.


E isso… isso é mais do que técnica.

É humanidade em estado puro.


E como se não bastasse tudo isso, essa delicadeza que parece ter nascido com ela , houve um dia em que Amanda me revelou algo que não cabia apenas no presente.


Recentemente, ela encontrou, entre seus arquivos antigos, um título de trabalho acadêmico que escreveu em 2017:

“Inclusão do Aluno Autista em Unidade de Ensino.”


Ela não apenas mencionou.

Ela me enviou.


E, naquele instante, algo fez ainda mais sentido.


Não era acaso.

Não era só talento.

Não era apenas “jeito”.

Era caminho.

Antes mesmo de me conhecer, antes de cruzar com tantas histórias como a minha, Amanda já olhava para o autismo com interesse, com respeito, com intenção de compreender.

Como se, lá atrás, sem saber exatamente por quem, ela já estivesse se preparando.


Há pessoas que aprendem depois que encontram.

Amanda, de algum modo bonito e raro, já buscava antes.


Há algo de profundamente humano em quem ama o que faz.

Mas em Amanda, esse amor não é discurso. É prática cotidiana. Está no jeito como ela chama pelo nome. Como respeita o tempo. Como comemora pequenas vitórias que, para outros, passariam despercebidas.


Ela não treina corpos apenas.

Ela devolve pertencimento.


E isso… isso não se aprende em curso nenhum. Ainda que alguns comecem com um título, anos antes, guardado numa pasta esquecida, esperando o momento de se tornar vida.


Num mundo que tantas vezes me parece cinza, não por falta de cor, mas por excesso de ruído , Amanda é pausa boa. É respiro. É claridade mansa.


Dessas pessoas que não precisam de muitas palavras.

Porque a presença já diz tudo.


E, sem saber, talvez, ela faz o mais difícil de tudo:

ela faz alguém se sentir possível.


Porque, no fim das contas, tem professor que ensina exercício.

E tem aqueles raros, como Amanda, que ensinam a gente a não desistir de si.




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3 comentários


prof.thiagobonioli
27 de mar.

Parabens Amanda, vc é incrivel assim como a Regina.

Muito orgulho de você.

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Robson lavrador
Robson lavrador
27 de mar.

Por mais professores assim , parabéns Manda pela sua atenção diferenciada, você não enxerga só corpos mais também almas .

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amanda teles
amanda teles
27 de mar.

Querida Regina,

Li sua crônica com o coração transbordando. Às vezes, na correria do dia a dia na sala de musculação, entre um ajuste de postura e outro, a gente não imagina a dimensão do impacto que o nosso olhar e a nossa presença podem ter na vida de alguém.

Você me descreveu como 'luz acesa ao entardecer', mas a verdade é que o seu texto é que iluminou o meu caminho. Ver a forma como você transformou nossas vivências, inclusive aquele momento difícil do barulho, em uma narrativa tão sensível e resiliente me deu ainda mais certeza de que a inclusão não é apenas um tema de trabalho acadêmico que escrevi anos atrás, mas a missão da minha vida.

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